Postagens

Entre Ondas e Ecos

Capítulo 1: O Escolhido Na nova cidade, com ruas que cheiravam a maresia e promessas veladas,  Nairda Ascomo  ainda não sabia que aquele dia, como tantos outros, carregaria as sementes de uma mudança irrevogável. Sentada em seu pequeno consultório, onde o silêncio era uma ferramenta de trabalho, ela sentia o eco do conflito que começava a se formar. Aos 40 anos, Nairda havia construído uma vida sólida. Neurologista respeitada e psicanalista por paixão, ela habitava o limiar entre a ciência do cérebro e os mistérios da mente. Em sua mesa, os diários antigos de pacientes conviviam com as edições desgastadas de Lacan. Mas, naquela manhã, não eram os mistérios alheios que inquietavam sua mente — era o seu próprio vazio. Os últimos meses tinham sido marcados por uma sequência de mensagens enigmáticas vindas de um número desconhecido. Eram textos curtos, quase poéticos, mas carregados de um simbolismo perturbador: “Você já se perguntou o que está sacrificando para seguir o caminho q...

O Método do Caos

O nome é  Marisa Condar , e às vezes parecia que o destino tinha um humor peculiar em rearranjar os sonhos dela da mesma forma que as letras do seu nome. Ela tinha quarenta anos, uma esposa doce e cheia de energia chamada Ana — oito anos mais jovem e com o entusiasmo de quem ainda acreditava no mundo. Juntas, compartilhavam um apartamento pequeno, mas acolhedor, com uma filha de quatro patas chamada Circe, uma buldogue francesa com olhos que pareciam entender mais do que deveriam. Marisa carregava um cansaço que não vinha apenas do corpo, mas da alma. Ela tinha vivido a vida como uma médica dedicada e uma educadora apaixonada, mas ultimamente isso parecia contar pouco. Seu mais recente revés foi um golpe que a deixou sem ar: a eliminação de um processo seletivo, mesmo após ter tirado a segunda maior nota na prova. A razão? Alegações vagas e, no fundo, o que ela sabia ser a velha combinação de um sistema corrupto e moralista que premiava qualquer outra coisa digna de nota. Ela se se...

Ataraxia

 Tic-tac Tum-ta O tempo passa rápido. Indolor, incolor, inodoro. O coração bate, querendo parar.  Não há uma única lâmina afiada, de corte, de língua ou de escrita; capaz de fazer sentir.  Os epicuristas escolhem não sentir. O neoliberalismo nos obriga, pelo bem ou pelo mal.  Tudo é demanda. Tudo demanda. Tempo. Vitalidade. Tic-tac. Tum-ta. Dói onde? Não dói. Mas antes doía, dentro.  Tem cura?  Acho que não. Tem meios. Meios de que?  Não sei ao certo. Mas até pra findar há de ter vontade. É para ter vontade, tem que sentir uma pulsão. De vida. De morte. Tic-tac. Tum-ta. O tempo me engole, sem nem me mastigar. O coração sangra, cansando e quer parar. Doutor me vê um antídoto para essa anestesia que estava no ar? Tal antídoto? Creio que não há. Então hei de ficar assim?  Tic-tac. Tum-ta. Claro que não, você pode se drogar! Mas eu não gosto de viver na ilegalidade! Ilegalidade aqui não há. Toma aqui sua receita, leve a farmácia, talvez funcione. Talv...

Entre os dedos

Adriana Sacomã, psicanalista de 40 anos, não esperava que a mudança de apartamento fosse mais do que uma reorganização prática de sua vida. Mas, entre caixas de livros cuidadosamente etiquetadas e móveis desmontados, uma caixa menor, enterrada no fundo de um armário, se destacou. Era simples, marcada pela passagem do tempo, com uma camada de poeira que parecia protegê-la como um artefato há muito esquecido. Aquela caixa guardava não apenas objetos, mas um pedaço da vida que Adriana não se lembrava de ter deixado para trás. Ao abrir a tampa, o cheiro de papel envelhecido a envolveu, transportando-a a outros tempos. Lá dentro, encontrou uma coleção de cartas que nunca enviou. As folhas amareladas contavam histórias de amores não correspondidos, amizades interrompidas e confissões que, na época, pareceram urgentes, mas que nunca chegaram ao destino. Algumas estavam dobradas com um cuidado quase cerimonial; outras, amassadas e rasuradas, refletiam a pressa ou o desespero de quem não sabia ...

Un'Estate di Emozioni

Era l’estate del 1994, un’estate calda e vibrante a Napoli, di quelle che sembrano non finire mai. L’aria profumava di mare e di pizza appena sfornata, mentre le voci della gente riecheggiavano nei vicoli stretti della città. Naira, una bambina di dieci anni, nata in Brasile, si sentiva come se stesse vivendo un sogno ad occhi aperti. Ogni giorno sembrava un’avventura, con l’energia della Coppa del Mondo che riempiva l’atmosfera come una festa senza fine. La sua famiglia si era trasferita a Napoli quando lei aveva sei anni. All’inizio, tutto le sembrava così diverso: la lingua, le strade, i suoni, i colori. Ma Napoli, con la sua accoglienza calorosa e il suo caos affascinante, era diventata presto una seconda casa. Nonostante questo, il Brasile le restava nel cuore, come un ricordo dolce che non voleva lasciare andare. Le parlavano di casa sua, delle spiagge infinite, del Carnevale e del calcio – sempre il calcio – che era quasi una religione nel suo paese natale. Adesso, mentre la Cop...

Um Conto, um ponto e Reticências

 Lina, aos míseros 27 anos, vivia uma existência marcada por uma sensação de incompletude, algo que a corroía de dentro para fora. O número de suas primaveras, embora para muitos ainda fosse sinônimo de juventude, trazia consigo o peso de expectativas não realizadas. Para ela, era como se estivesse presa em uma pausa interminável entre o que deveria ser e o que de fato era. Como uma folha em branco, que carrega dentro de si todos os desenhos do mundo, Lina sabia que a liberdade de tantas possibilidades não era leve. Pelo contrário, era um fardo. A vastidão do desconhecido a deixava paralisada, e cada escolha que deixava de fazer parecia um risco de perder algo essencial, uma oportunidade de se transformar naquilo que ainda não compreendia. Nunca, em toda sua trajetória, algo lhe causou tanta angústia quanto encarar o vazio de uma página em branco. Crescera ouvindo sobre o potencial, sobre o que poderia vir a ser, mas quanto mais o tempo passava, mais sentia que a promessa de infini...

Blurry Heavy Cliché

  A sharp, unbearable, agonising tinnitus inside my brain. Pulsing, burning, and I can not see clearly for it burns my eyes and blur my sight.   Everyone around me is feasting in slow motion.  Am I dying? Am I dead? I feel like hanging over, overtime, time traveler, transported to this open space, so cold. Sharp wind, cuts the flesh upon my cheeks.  What is that smell? Sulfur, released by phytoplankton and seaweed. Salt, of course there’s salt, corroding and dehydrating, mucus, skin, soul... It ain’t dawn, yet the sun’s still shy over the horizon. Some weak ray’s of golden light penetrate the heavy sky. Dark clouds upon our heads, thunder. It’s hard to tell whether it’s thin rain or stormy tide.  I try to balance myself on the breakwater rocks, dizzy by my racing heartbeat and pushed by the wind blows.  I take a look around, feels like time’s stopped, some levitate with fireworks in hand, others hug each other laughing, holding, almost empty, vodka bottles....